Descobrindo o Descobrimento

Em 1998 uma amiga terminava o curso de história e precisava preparar sua monografia. Como já se falava dos preparativos para comemoração dos 500 anos do descobrimento, ela escolheu este tema para seu trabalho e me pediu que a ajudasse na pesquisa.
Comecei a pesquisar e quando percebi estava completamente envolvida. Nunca imaginei que poderia ser tão interessante as coisas que descobri. Mesmo depois que minha amiga terminou o trabalho eu continuei a pesquisar, recolher informações e curiosidades sobre a viagem e resolvi que escreveria um livro paradidático. Comecei a organizar os dados. Seria voltado apenas para descrever as principais curiosidades do descobrimento e tudo que ele envolvia. Mas eu tinha um grande inimigo, não dominava, como ainda não domino, o computador. Fiz uma besteira sem tamanho e fui colocando tudo na memória da máquina sem imprimir ou tirar cópia em disquete (sim, ainda era disquete) . Quando já estava na fase de revisão, fui alertada por minha irmã do risco que corria em perder tudo e antes que pudesse salvar cópias, um vírus destruiu a memória da minha máquina e tudo que me restou foram várias folhas em que anotava trechos da pesquisa, sites sobre o assunto ou páginas de livros.
Claro que como ainda tinha todas as anotações da pesquisa poderia recomeçar. Mas fazer o mesmo trabalho duas vezes é completamente frustrante. E tudo ficou num canto de um armário. Agora achei e pensei em aproveitar para colocar nesta página as coisas principais.
Será que você conhece esse lado da história?
Vamos começar com Cabral.

1- Você sabe quem era Pedro Álvares Cabral antes do descobrimento?
Pois bem, ele não existia. Bom, pelo menos não com este nome. Na época, apenas o filho mais velho herdava o sobrenome do pai, os outros filhos ficavam com o sobrenome da mãe. Cabral era o segundo filho e por isto seu nome era Pedro Álvares Goveia. É este nome que aparece no documento em que o rei o nomeia comandante da expedição às Índias. Goveia era o sobrenome da mãe, filha de uma importante família da nobreza portuguesa. Porém, antes da viagem o irmão mais velho de Pedro morre e ele assume o sobrenome Cabral.
2- Mas, como era a vida de Cabral antes de sair navegando?
Ele guerreava. Ele era de família de fidalgos (nobres) . Como disse anteriormente, ele não era o filho mais velho, o que lhe tirava o direito a herança, por isso deveria fazer sua própria fortuna. Muito jovem se preparou para ser um guerreiro e alguns historiadores defendem a ideia dele ter participado de combates no norte da África. Mas segundo os fofoqueiros de plantão, sua grande tacada foi casar com Dona Isabel de Castro, filha de uma das mais importantes e ricas famílias portuguesas.
3- Se Cabral não era navegador, por que foi escolhido para comandar a maior expedição marítima organizada naquele período?
A expedição de Cabral era composta de 13 embarcações (9 naus,3 caravelas e uma naveta de mantimentos). Em cada embarcação o rei colocou como capitão um navegador de primeira linha, então para comandar toda a expedição ele não precisava de um navegador, ele precisava de um militar. Isto porque Vasco da Gama ao retornar das Índias, deixou bem claro que a próxima viagem seria mais perigosa. Ele acreditava que os árabes iriam envenenar os indianos contra os portugueses para afastar a concorrência. E foi exatamente isto que aconteceu. Vasco aconselhou ao rei que o próximo comandante fosse preparado para lutar. Então, na análise de currículos da época o rei procurava alguém com as seguintes características: Nobre , afinal representaria o rei ao conversar com líderes indianos; diplomático, por razões óbvias; militar - deveria estar preparado para enfrentar uma batalha caso os indianos se negassem a negociar, como foi o que acabou acontecendo. Mas dizem que a cereja do bolo na escolha de Cabral foi seu tamanho. Os portugueses na época tinham em média pouco mais de 1,60 de altura, mas Cabral tinha 1,92. Era chamado de gigante por alguns. O rei acreditou que seu tamanho ajudaria a impressionar os indianos.
4- Características que se destacaram em Cabral?
Era considerado um homem educado, gentil, culto, humilde, mas também vaidoso e principalmente religioso. Pertencia a Ordem de Cristo e durante a viagem rezava constantemente junto a uma imagem de Nossa Senhora que trazia no navio.
5- Como foi sua passagem pelo Brasil?
Cabral não pisou em terras brasileiras. Ele ficou o tempo todo no navio. Seu contato com os índios, descrito na carta de Caminha, só ocorreu porque os nativos foram trazidos para o navio. E até mesmo a primeira missa ele assistiu da embarcação, o que reforça a teoria de que a missa foi rezada num banco de corais na praia de Coroa Vermelha.
6- Por que Cabral depois que retornou a Portugal ficou recluso?
A viagem de Cabral foi muito tumultuada. Navios se perderam ou naufragaram e ainda teve a batalha em Calicute. Das 13 embarcações que iniciaram a viagem duas voltaram vazias (tinham se perdido e se encontraram com Cabral quando este retornava a Portugal); seis naufragaram e apenas cinco voltaram completamente carregadas assegurando um lucro de 800% para a coroa portuguesa. Mas mesmo este lucro enorme não foi suficiente para tirar de Cabral a fama de azarado devido a tantos navios perdidos. Muitos historiadores alegam que essas perdas ocorreram porque os navios foram construídos as pressas para a viagem.
Ficou bem claro que o rei não gostou do resultado da viagem através da premiação dada, enquanto Vasco da Gama em sua primeira viagem as Índias tinha ganhado 150 quilos de ouro do rei, Cabral ganhou apenas 35. O ponto final deste mal estar se deu quando Cabral se preparava para uma nova viagem, chamada por muitos como a viagem da vingança, e na última hora ele foi substituído por Vasco da Gama. Cabral então saiu de Lisboa e foi morar em Santarém, onde ficou quase esquecido e sofrendo com a malária que adquirira na viagem.
7- Qual a polêmica das ossadas de Cabral?
Por várias vezes as ossadas de Cabral foram exumadas. Entre essas exumações uma foi resultado de uma campanha de políticos brasileiros que queriam trazer seus restos mortais para o Brasil. Em 1903 foi autorizado o translado da ossada para o Rio de Janeiro, porém ao abrirem o túmulo encontraram várias ossadas misturadas. Como Cabral era muito alto, recolheram os ossos maiores e trouxeram para cá. Porém em 1961 uma igreja portuguesa recebeu a oferta de guardar a verdadeira ossada do famoso português e no final da confusão ninguém sabe dizer onde estão os restos mortais dele.