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Carmem
Carmem

Carmem

 

          Seu nome era Carmem, só Carmem. Quem duvida pode conferir no documento que ela apresentou ao entrar no Brasil e que completamente amarelado pelo tempo, ainda tenho guardado comigo. No porto o funcionário achou estranho e sentenciou: “não pode ser apenas Carmem, você precisa acrescentar alguma coisa”. E ela passou a ser Carmem Aurora. Mas quando meu avô foi ao cartório registrar minha mãe, em sua euforia ampliada pelo vinho, não conseguia lembrar o nome completo da companheira e diante do escrivão disse que a mãe da menina chamava-se Carmem de Jesus dos Anjos. Assim ficou registrado na certidão de minha mãe e consequentemente na minha.

          Carmem, Carmem Aurora, Carmem de Jesus dos Anjos. Todas a mesma mulher, que de tão grande não cabia em uma e precisou ser várias.

          Acredito que como todo neto, não consigo imaginar minha avó jovem. A convivência com aquela velhinha tipicamente portuguesa, com suas rugas e suas bengalas improvisadas, me fazia pensar que ela tinha sido assim a vida inteira. Ela também não falava muito do passado, o que aumentava a minha sensação de que existia a partir do fato de ser minha vó. Egocentrismo justificado por todos os cuidados que ela a mim dispensava, sempre me fazendo sentir especial perto dela.

          Para surpresa de todos, ela não era portuguesa. Como acreditar que aquela senhorinha de vestidos com florzinha, lenço na cabeça, sotaque luso carregado e grossos pelos no queixo, não era portuguesa. Mas não era. Seus pais vieram de Portugal antes dela nascer e por aqui ficaram tempo suficiente para terem seus dois primeiros filhos, minha vó Carmem e seu irmão Carlos. Como as coisas não estavam bem por aqui resolveram voltar para sua terra e levaram os dois filhos ainda bem pequenos. Lá se foi minha avó para a terra de seus pais aos dois anos.

          Carmem cresceu em Portugal, numa aldeia típica e adquiriu todos os hábitos portugueses. Mas as coisas estavam difíceis e ela viu seu irmão Carlos um dia partir para o Brasil. Aos dezessete anos sua mãe ficou muito doente e em seu leito de morte pediu que a filha voltasse para a terra em que nasceu e onde teria chance de ter uma vida melhor. Minha avó partiu sozinha rumo ao Brasil aos dezoito anos. Logo após sua chegada veio o comunicado que sua mãe havia falecido e ela se sentiu ainda mais só.

          Conseguiu emprego como doméstica numa casa de família muito rica. Morava no emprego. E nos dias de folga visitava alguns conterrâneos. Foi numa dessas visitas que um português entrou em sua vida. Antônio era um rapaz bonito, alto, muito falante, a todos conquistava com sua simpatia. Viveram uma história de amor. Minha vó gostava de dizer que ele tinha se apaixonado por suas pernas, ou o que podia ver delas. Moraram juntos, tiveram filhos, realizaram sonhos, viveram.

          Poderia contar histórias dela, mas não posso, pois ela não era de contar histórias. Embora agora fico pensando se não era eu que não me colocava atenta às suas histórias. Hoje sei que poderia ter aproveitado mais de sua presença.

          Sua sabedoria vinha da simplicidade de viver a vida. Tinha sempre uma frase pronta para cada situação. Frases que me pego repetindo.

          Era minha defensora fiel. Perdi as contas das vezes em que me livrou das surras de minha mãe ou pelo menos fazia com que ela fosse amenizada. Também era minha relações públicas, estava sempre fazendo propaganda de minhas vitórias, mesmo sem entendê-las direito. Quando passei no vestibular ela foi a primeira para quem contei. Eu estava tão feliz que só repetia pra ela “passei no vestibular, passei no vestibular” . E foi o suficiente para que ela passasse quatro anos falando orgulhosa para todos que parassem no seu portão “minha neta é muito inteligente, ela está fazendo o vestibular”.

                      Tenho saudade. Às vezes penso que ela ainda está ao meu lado, me defendendo das surras da vida e dizendo baixinho no meu ouvido “Não se preocupe, não há mal que sempre dure, nem bem que não se acabe”.

 

Dinaiá Lopes

03 / 03 / 14

 

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